Caracterizada como uma doença
crônica degenerativa, a cirrose está bastante presente em nosso meio. Possui
evolução insidiosa, com quadro clínico diversificado, variando de inespecífica
a assintomática. Já vimos no post passado que apresenta etiologia
diversificada, porém o consumo de bebidas alcoólicas apresenta-se como causador
predominante, o que nos leva a refletir sobre hábitos sociais presentes na cultura
brasileira.
Sabe-se, por exemplo, que no Brasil
há desarmonia entre o forte marketing das propagandas sobre o uso do álcool e
as políticas públicas de redução de danos sociais e à saúde decorrentes do uso
desses produtos. Além desse antagonismo, que é, primeiramente, uma questão
econômica, já que a indústria de bebidas alcoólicas tem grande importância comercial e financeira,
observa-se que as leis nas quais essa política pública se embasa não são
efetivamente cumpridas. Embora seja proibida, a venda de bebidas alcoólicas para
jovens com idade inferior a 18 anos ainda acontece e esses jovens têm contato
cada vez mais precoce com tais produtos. Da mesma forma motoristas dirigem
alcoolizados muitas vezes sem punição.
Fica claro, então, que o objetivo
esperado com o cumprimento dessas leis não será completamente alcançado e os
danos causados pelo consumo do álcool não serão suficientemente reduzidos, uma
vez que o próprio uso dessa substância não mostra significante redução, mas
difunde-se cada vez mais.
Uma vez instalada, entretanto, a
cirrose parece apresentar um assustador valor simbólico na sociedade, principalmente
por causar uma alteração negativa da imagem corporal em relação aos padrões pré-estabelecidos
e por relacionar-se com a possibilidade de morte iminente. Deste modo, o
indivíduo requer cuidados imediatos e de acolhimento nos diversos espaços de
cuidado, sendo importante assistência psicossocial.
Após o diagnóstico, é possível estimar
o prognóstico da cirrose. No entanto, algumas atitudes como a determinação e a
vontade do indivíduo, em relação ao abandono do uso de bebidas alcoólicas, são
decisivas e, caso não siga as recomendações, há piora do prognóstico. Assim
sendo, é necessário reabilitar o paciente e a família a esse novo modo de viver
no mundo. Esta, porém, não é tarefa fácil e requer disponibilidade, compromisso
social dos trabalhadores de saúde.
O avanço das pesquisas científicas
tem contribuído para o consequente avanço da informação sobre a doença,
melhorando e aumentando a sobrevida de seus portadores. Ao mesmo tempo, tem-se
intensificado as reflexões sobre os estigmas, comportamento e medos provocados pela
cirrose hepática alcoólica, levantando-se questionamentos como: Quais as
repercussões da cirrose hepática alcoólica sobre a vida de seus portadores?
Como estes portadores se posicionam em face da doença?
No próximo post destrincharemos o
artigo científico Representações sociais sobre cirrose hepática alcoólica
elaboradas por seus portadores, publicado pela Mestranda em Cuidados Clínicos
em Saúde, Universidade Estadual do Ceará (UECE), Edilma Gomes Rocha em conjunto
com a Doutora em Enfermagem, docente da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Maria
Lúcia Duarte Pereira. De acordo com as autoras: “As representações sociais
apreendidas neste estudo permitiram identificar aspectos subjetivos do portador
de cirrose hepática alcoólica, inerentes a sua relação consigo mesmo, com o
outro e com o mundo que o cerca, além de reconhecê-lo como um ser
biopsicossocial, constituído por determinações históricas, sociais e culturais”.
Até o próximo post!
Referências:
GONÇALVES,
L. Alcoolismo e Cirrose Hepática. 2009. 173 f. Dissertação (Mestrado Integrado
em Medicina) – Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade da Beira Interior,
Covilhã. 2009.
ROCHA,
Edilma Gomes and PEREIRA, Maria Lúcia Duarte. Representações
sociais sobre cirrose hepática alcoólica elaboradas por seus portadores. Esc.
Anna Nery [online]. 2007, vol.11, n.4, pp. 670-676. ISSN 1414-8145.

