segunda-feira, 26 de maio de 2014

Hábitos sociais e prognóstico


Caracterizada como uma doença crônica degenerativa, a cirrose está bastante presente em nosso meio. Possui evolução insidiosa, com quadro clínico diversificado, variando de inespecífica a assintomática. Já vimos no post passado que apresenta etiologia diversificada, porém o consumo de bebidas alcoólicas apresenta-se como causador predominante, o que nos leva a refletir sobre hábitos sociais presentes na cultura brasileira.
Sabe-se, por exemplo, que no Brasil há desarmonia entre o forte marketing das propagandas sobre o uso do álcool e as políticas públicas de redução de danos sociais e à saúde decorrentes do uso desses produtos. Além desse antagonismo, que é, primeiramente, uma questão econômica, já que a indústria de bebidas alcoólicas tem grande importância comercial e financeira, observa-se que as leis nas quais essa política pública se embasa não são efetivamente cumpridas. Embora seja proibida, a venda de bebidas alcoólicas para jovens com idade inferior a 18 anos ainda acontece e esses jovens têm contato cada vez mais precoce com tais produtos. Da mesma forma motoristas dirigem alcoolizados muitas vezes sem punição.
Fica claro, então, que o objetivo esperado com o cumprimento dessas leis não será completamente alcançado e os danos causados pelo consumo do álcool não serão suficientemente reduzidos, uma vez que o próprio uso dessa substância não mostra significante redução, mas difunde-se cada vez mais.
Uma vez instalada, entretanto, a cirrose parece apresentar um assustador valor simbólico na sociedade, principalmente por causar uma alteração negativa da imagem corporal em relação aos padrões pré-estabelecidos e por relacionar-se com a possibilidade de morte iminente. Deste modo, o indivíduo requer cuidados imediatos e de acolhimento nos diversos espaços de cuidado, sendo importante assistência psicossocial.
Após o diagnóstico, é possível estimar o prognóstico da cirrose. No entanto, algumas atitudes como a determinação e a vontade do indivíduo, em relação ao abandono do uso de bebidas alcoólicas, são decisivas e, caso não siga as recomendações, há piora do prognóstico. Assim sendo, é necessário reabilitar o paciente e a família a esse novo modo de viver no mundo. Esta, porém, não é tarefa fácil e requer disponibilidade, compromisso social dos trabalhadores de saúde.
O avanço das pesquisas científicas tem contribuído para o consequente avanço da informação sobre a doença, melhorando e aumentando a sobrevida de seus portadores. Ao mesmo tempo, tem-se intensificado as reflexões sobre os estigmas, comportamento e medos provocados pela cirrose hepática alcoólica, levantando-se questionamentos como: Quais as repercussões da cirrose hepática alcoólica sobre a vida de seus portadores? Como estes portadores se posicionam em face da doença?
No próximo post destrincharemos o artigo científico Representações sociais sobre cirrose hepática alcoólica elaboradas por seus portadores, publicado pela Mestranda em Cuidados Clínicos em Saúde, Universidade Estadual do Ceará (UECE), Edilma Gomes Rocha em conjunto com a Doutora em Enfermagem, docente da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Maria Lúcia Duarte Pereira. De acordo com as autoras: “As representações sociais apreendidas neste estudo permitiram identificar aspectos subjetivos do portador de cirrose hepática alcoólica, inerentes a sua relação consigo mesmo, com o outro e com o mundo que o cerca, além de reconhecê-lo como um ser biopsicossocial, constituído por determinações históricas, sociais e culturais”.
Até o próximo post!

Referências:
GONÇALVES, L. Alcoolismo e Cirrose Hepática. 2009. 173 f. Dissertação (Mestrado Integrado em Medicina) – Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade da Beira Interior, Covilhã. 2009.
ROCHA, Edilma Gomes  and  PEREIRA, Maria Lúcia Duarte. Representações sociais sobre cirrose hepática alcoólica elaboradas por seus portadores. Esc. Anna Nery [online]. 2007, vol.11, n.4, pp. 670-676. ISSN 1414-8145.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Cirrose Hepática e suas causas

Fígado cirrótico prestes a ser retirado para dar lugar a um órgão transplantado.

A cirrose hepática é um processo crônico e progressivo de inflamações, que resultam numa fibrose difusa, na formação de nódulos, e, frequentemente, morte celular.  Esse processo é resposta a determinadas agressões contínuas ao órgão, sendo suas células originais substituídas por tecido fibroso em um processo característico de cicatrização. Com isso, o órgão perde sua funcionalidade, pois esse tecido fibroso não apresenta a função fisiológica desempenhada pelo tecido normal.
Como complicação, pode ocorrer um estrangulamento da veia porta, o que impede a circulação do sangue que chega ao fígado proveniente do sistema digestivo, provocando um aumento de pressão no interior desta veia e a uma insuficiência hepática progressiva que geralmente termina numa falência total do fígado.
A cirrose hepática pode ter causas diversas:
  • Infecciosa: as hepatites virais crônicas, principalmente B e C, podem levar a cirrose após anos de doença ativa.
  • Agentes tóxico-químicos: álcool, drogas e determinados medicamentos.
  • Hepatite autoimune: nosso organismo começa inapropriadamente a produzir anticorpos contra o próprio fígado, como se este fosse um invasor, um corpo estranho que não nos pertence.
  • Esteatose hepática não alcoólica: acúmulo de gordura nas células do fígado. Pode evoluir para hepatite e, então, cirrose. As principais causas são obesidade, diabetes, uso crônico de corticoides e desnutrição.
  • Cirrose biliar: também uma doença de origem autoimune em que há destruição das vias biliares e consequentemente do fígado.
  • Doenças metabólicas: Hemocromatose, Doença de Wilson, Deficiência de alfa-1-antitripsina.
  • Distúrbios vasculares: Insuficiência cardíaca direita crônica, Síndrome de Budd-Chiari.

Dentre esses fatores, o uso contínuo de bebidas alcoólicas representa o principal processo na disfunção e propagação de patologias que evoluem para danos hepáticos como esteatose hepática e cirrose.
Nos próximos posts discutirei como o álcool possui uma representação cultural antiga e de que forma, na contemporaneidade, insere-se em agravos que repercutem em várias dimensões. Além disso, será exposto o assustador valor simbólico que a cirrose parece ter na sociedade, sobretudo por estar relacionada com alteração negativa da imagem corporal e com a morte evidente.
Até breve!

[Brandão ABM et al. Cirrose. In:Lopes ACL. Tratado de clinica médica. São Paulo(SP): Roca; 2006.]
[BURTIS, C.A ., ASHWOOD, E.R. TIETZ. Fundamentos de Química Clínica. 4 ed., Rio de Janeiro:  Guanabara Koogan, 1998]

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