Existem inúmeras relações entre a encefalopatia e a nutrição
do paciente hepatopata. A abordagem nutricional permite corrigir ou controlar a
complicação e, mais ainda, fornecer uma condição de anabolismo que vai resultar
em melhoria do estado geral do paciente, inclusive tornando-o mais resistente
ao aparecimento de outras complicações como ascite ou infecção. Nesta post
serão discutidas, entre outras, algumas medidas clássicas, para se atingir
aqueles objetivos.
1- Restrição proteica: é a abordagem mais conhecida e existem
inúmeros trabalhos mostrando que a restrição de proteína animal controla de
fato a encefalopatia. Todavia, vários aspectos devem ser levados em conta. A
carne de origem animal, especialmente a dos mamíferos, é um componente
importante da dieta ocidental. A sua restrição com frequência leva a
agravamento da condição nutricional do paciente devido à persistência do estado
catabólico. Há diversas formas de encarar o problema. Em primeiro lugar,
deve-se dizer que o hepatopata mantém-se em estado de equilíbrio nitrogenado
com ingestão de 0,5 a 1g de proteína por quilo por dia. É o cirrótico por
álcool o que exige maior oferta proteica, especialmente logo após a interrupção
da bebida. Os hepatopatas com encefalopatia geralmente apresentam-se bastante
desnutridos, devendo-se procurar um estado de anabolismo. Sabe-se que menos de
10% dos encefalopatas apresentam necessidade de restrição de proteína animal.
Assim, um bom início é não restringir proteína animal, pelo menos até que se
tenha a certeza de que se trata de paciente com intolerância à carne bovina.
Nesta última condição, devemos restringir a proteína animal a zero e, a seguir,
ir aumentando progressivamente até identificar o nível da intolerância. Ainda
no que se refere à proteína animal, observa-se que há os que proscrevem dietas
contendo proteínas do leite e os que procuram fornecer praticamente toda a
proteína animal a partir do peixe. De modo geral, a dieta contendo proteínas de
carne de vaca é a que mais contém aminoácidos de cadeia ramificada, em segundo
lugar vem a carne de peixe (ou carnes brancas - aves) e, por último, a proteína
derivada do leite. Assim, devemos tomar precauções para não recomendar uma
dieta monótona, que dificilmente será tolerada a longo prazo, como é o caso da
carne de peixe. A melhor é aquela que contempla de forma razoavelmente
balanceada todas as fontes de proteína animal.
2-Proteína vegetal: Há mais de 20 anos descobriu-se que o
hepatopata tolera melhor proteínas de origem vegetal do que as de origem animal.
Provavelmente este fato deve-se à diferente composição de aminoácidos dessas
proteínas. Outro fator relacionado com o efeito benéfico desta fonte proteica é
que os vegetais, de modo geral, aceleram o trânsito intestinal e produzem dois
efeitos favoráveis ao controle da encefalopatia: o próprio efeito laxante e uma
maior quantidade de proteína excretada (não absorvida). Evidentemente, esses
efeitos benéficos são parcialmente neutralizados pela dificuldade em manter o
paciente com dietas desse tipo. Além disso, já dissemos que, para haver síntese
proteica, é necessária a associação de proteínas animais e vegetais contendo
tanto os aminoácidos essenciais quanto os não-essenciais. Mais ainda, o volume
da dieta muito rica em vegetais, em pacientes inapetentes, é outro problema a
ser considerado.
3-Dissacarídeos inabsorvíveis: O mais conhecido é a lactulose cuja apresentação
comercial é um xarope contaminado com quantidades significativas de lactose,
galactose e outros carboidratos, substâncias responsáveis pelo seu sabor
adocicado. Há uma forma cristalizada, pura, melhor tolerada, porém muito mais
cara. A lactulose talvez seja o agente que isoladamente tenha o melhor efeito
em controlar a encefalopatia. Inicialmente achava-se que seu efeito devia-se a
duas ações: diminuição da proliferação de bactérias produtoras de amônia pela
acidificação do bolo fecal e ação fortemente laxante. Hoje sabe-se que há
outros mecanismos envolvidos que incluem o transporte do íon amônia, e a
incorporação de nitrogênio no metabolismo das bactérias, entre outros.
A lactose, açúcar derivado do leite, não é completamente absorvida e tem
mecanismo de ação semelhante à lactulose. Por isso, derivados do leite são
úteis em controlar a encefalopatia no homem. O lactitol também é um dissacarídeo
não absorvido. Tem ação semelhante à lactulose e é melhor tolerado
principalmente por ser menos adocicado, todavia é muito mais caro.
4-Aminoáciodos de cadeia ramificada: De modo geral, aceita-se
que as soluções orais são mais benéficas que as soluções parenterais. Estas
últimas são mais fortemente questionadas. É de ressaltar essas dúvidas
principalmente se levarmos em conta a enorme repercussão no meio médico trazida
pela hipótese do desbalanço entre aminoácidos aromáticos com os de cadeia
ramificada como fator responsável pela encefalopatia dos hepatopatas. Além
desse questionamento científico, deve-se frisar o seu alto custo para uso
contínuo.
Além dessa abordagem nutricional, podem ser administrados agentes
antimicrobianos usados para inibir bactérias produtoras de urease e que
promovem a transformação de ureia em amônia, principalmente nas porções mais
distais do íleo e nas proximais do intestino grosso. O antimicrobiano mais
difundido é a neomicina, usado tanto por via oral quanto misturado ao líquido
de lavagem intestinal. Esse antibiótico pertence ao grupo dos aminoglicosídeos
e é dito que não é absorvido. Todavia, mais recentemente, descobriu-se que de 1
a 3% da droga é absorvida e pode produzir tanto oto quanto nefrotoxicidade a
longo prazo. Por isso, seu uso deve-se restringir no máximo aos pacientes
descompensados e por apenas 4 ou 5 dias. A neomicina é um agente ativo contra
bactérias Gram. negativas e alguns estafilococos. Os anaeróbios Gram. negativos
constituem um grupo de bactérias que produzem uma quantidade substancial de
amônia a partir de peptídeos existentes no colón. Por isso outros agentes que
combatem estas bactérias também são úteis no controle da encefalopatia. Dentre
eles cita-se o metronidazol, droga bastante segura e tão eficiente quanto a
neomicina para controle da encefalopatia.
Para resumir o tratamento dos doentes com encefalopatia,
devemos avaliar em primeiro lugar se a alteração neuropsíquica foi desencadeada
por alguma das complicações tão comuns nos cirróticos. Qualquer que seja a
orientação nutricional no hepatopata deve-se sempre fracionar a dieta. Seis
refeições por dia, em menores porções por vez, permitem um melhor
aproveitamento nutricional, muitas vezes revertendo um estado catabólico
persistente. A melhor forma de evitar tanto a encefalopatia quanto as outras
complicações é buscar um regime nutricional compatível com anabolismo e
reposição das proteínas corpóreas.
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