quarta-feira, 25 de junho de 2014

Abordagem nutricional do paciente com ascite

Paciente com ascite severa
O paciente portador de cirrose hepática frequentemente desenvolve complicações ao longo da evolução da doença. Existem 2 formas clássicas de descompensação do paciente com cirrose que comportam abordagem nutricional: ascite e encefalopatia, para as quais a terapêutica nutricional é ampla e deve ser conduzida baseada em critérios fisiopatológicos razoavelmente bem definidos.
O paciente com cirrose apresenta sempre algum grau de retenção de sódio e essa retenção é proporcional ao estágio da doença, ou seja, quanto mais avançada, maior a retenção. Juntamente com a retenção de sódio, haverá retenção de água. Como consequência, se formarão edemas e depósitos de líquidos intracavitários, principalmente abdominal (ascite). Isto significa que se a ingestão de sal for restrita, o acúmulo de líquidos poderá ser evitado e, consequentemente, a ascite. Ao lado do repouso, esta é a primeira abordagem que deve ser utilizada nesta. A restrição de sódio não deve ser prescrita de forma aleatória. O ideal é avaliar a capacidade de excreção de sódio de cada paciente. Essa avaliação é realizada com o paciente internado por 2 ou 3 dias. Nessa situação, toda a diurese do paciente é guardada por 24h e dosada a quantidade de sódio na urina. Pacientes que apresentam excreção urinária de sódio extremamente baixa (10mEq/litro ou menos), normalmente apresentarão maior dificuldade no controle da retenção hídrica. Por outro lado, aqueles com retenção moderada (20 a 40mEq/litro de urina) possivelmente responderão apenas com restrição de, por exemplo, 40mEq de sódio na dieta. Assim, percebe-se que a restrição de sal deve ser conduzida de acordo com a capacidade de excreção de sódio pelo paciente. Outro aspecto muito importante a ser considerado é que dietas muito restritivas em sódio (10mEq, por exemplo) acabam por desnutrir o paciente devido a sua pouca palatabilidade. Por isso recomenda-se fazer um balanço entre a recomendação de restrição e a capacidade do paciente de aceitar uma dieta difícil de ser ingerida. Nessas condições, deve-se liberar outros temperos para tornar a restrição mais palatável. Pode-se usar alho, cebola, pimenta, vinagre, azeite, limão, e assim por diante. Outro recurso que facilita a tarefa do médico, e o apetite do paciente, é o uso de produtos dietéticos substitutos do sal. Deve-se tomar cuidado com o paciente que usa esse tipo de substituto do sal associado ao uso de diuréticos poupadores de potássio, pois podem favorecer o aparecimento de hipercalemia (nível elevado de potássio na corrente sanguínea) severa. Assim, deve-se avaliar periodicamente os níveis sanguíneos de potássio. O próximo passo, se não conseguirmos controlar a retenção apenas com repouso e restrição de sal, é o uso de diuréticos.
O tratamento da ascite, seguindo os passos assinalados, é gradual e demanda tempo do médico, exames de controle, e internação mais prolongada, o que significa maiores gastos. Na última década tem-se preconizado o esvaziamento rápido do líquido intraperitoneal por meio de punções. Recomenda-se esvaziar 6 litros do líquido por punção, com reposição de expansores do plasma (pode-se utilizar a albumina). Mais recentemente ainda, tem-se realizado apenas punções, sem o emprego de expansores. Evidentemente esta última opção é rápida e a mais barata. Contudo, é importante avaliar cuidadosamente qual doente tem condições de suportar a drenagem sem o uso de expansores. Geralmente é aquele que apresenta função renal mais preservada, com sódio plasmático mais próximo do normal. Essas punções são eficientes, mas apresentam duas desvantagens importantes: uma é um método invasivo que exige todos os cuidados de antissepsia para evitar contaminação da cavidade, e a outra desvantagem é nutricional. Estaremos desprezando proteínas do próprio paciente que, pela própria doença, apresenta dificuldades de síntese (insuficiência hepática). Por isso, observa-se importante consumo muscular quando se realiza com frequência este tipo de procedimento. Mesmo após a drenagem, é necessário o uso de diuréticos cujas doses serão tateadas para manter o paciente livre da ascite.
Sempre que tratamos um paciente com ascite pelo uso de diuréticos ou de paracentese (punção do líquido peritoneal) vai-se observar uma discreta descompensação da função renal que se manifesta por aumento dos níveis de ureia e de creatinina. Essa descompensação é óbvia pois estamos sempre produzindo uma contração do intravascular num paciente que já é cronicamente hipovolêmico (pela própria insuficiência hepática). Algumas vezes vamos observar dificuldade maior no controle da ascite ou agravamento mais ou menos rápido do derrame intraperitoneal, geralmente acompanhados de aumento dos níveis de ureia e de creatinina. Nessa situação, deve-se sempre afastar infecções associadas, muito comuns no hepatopata e frequentemente não acompanhadas pelos sinais clássicos de febre, leucocitose ou hiperglicemia. Três são os quadros infecciosos mais comuns: infecção urinária, broncopneumonia e, especialmente, peritonite bacteriana espontânea. Nessa hipótese, só vamos controlar a ascite com o uso de antimicrobianos adequados.
A abordagem nutricional no paciente com encefalopatia por doença hepática crônica permite corrigir ou controlar a complicação e, mais ainda, fornecer uma condição de anabolismo que vai resultar em melhoria do estado geral do paciente, inclusive tornando-o mais resistente ao aparecimento de outras complicações como ascite ou infecção. Existem inúmeras relações entre a encefalopatia e a nutrição do paciente hepatopata e, no próximo post, serão discutidas algumas medidas clássicas, para se atingir três objetivos principais do tratamento da encefalopatia do hepatopata crônico:
1-identificar e corrigir os fatores precipitantes (desencadeantes);
2-reduzir a quantidade de produtos nitrogenados no intestino e no sangue;
3-evitar as complicações iatrogênicas principalmente medicamentosas.

Até breve!

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quarta-feira, 18 de junho de 2014

Abordagem nutricional na cirrose compensada

O paciente portador de cirrose hepática apresenta múltiplas alterações metabólicas que comprometem profundamente seu estado nutricional, que podem ser corrigidas por meio de uma terapêutica nutricional. Quando se fala em terapêutica nutricional na cirrose hepática é importante definir com precisão o objetivo que se quer alcançar, bem como avaliar as condições do paciente do ponto de vista nutricional.
Os cirróticos podem apresentar uma série de condições clínicas que orientam diferentemente o tratamento a ser empregado. Deve-se precisar se o paciente está com cirrose compensada ou descompensada e, neste caso, que tipo de descompensação apresenta, pois admitem abordagem nutricional e geral completamente diferente.
Entre os compensados, isto é, sem complicações, pode-se simplesmente manter da melhor forma possível seu estado nutricional, ou então, pode-se querer reverter o máximo possível o consumo de massa muscular tão característico de estágios mais avançados da doença. Nas formas descompensadas pode-se também controlar a ascite ou a encefalopatia, quando essas complicações aparecem de forma espontânea ou como parte de outras complicações como é o caso das infecções, tão comuns na cirrose hepática.
A primeira atitude do médico frente a um paciente com cirrose compensada é observar que a prescrição de dietas muito restritivas, sem indicação precisa, pode produzir efeito oposto ao desejado. Salvo condições muito claras, não existe indicação cientificamente comprovada para limitar o uso deste ou daquele componente da dieta. É comum que se observe orientação dietética para não ingerir gorduras ou ingerir o máximo possível de hidratos de carbono. Na realidade, o paciente nessas condições deve ingerir uma dieta equilibrada em gorduras, proteínas e hidratos de carbono como uma pessoa normal, sem qualquer restrição. Por outro lado, pacientes com coletase intra-hepática, por exemplo, podem apresentar uma menor quantidade de pigmentos biliares no intestino e, daí, ter dificuldades em digerir alimentos gordurosos. Dessa forma, indica-se que se deve restringir ingestão gordurosa suficiente para evitar diarreias espoliativas decorrentes de má absorção de gorduras. Em qualquer condição, é aconselhável que o paciente realize várias refeições por dia ao invés das três convencionais. É preferível realizar pequenas refeições, várias vezes ao dia, a duas ou três refeições copiosas. Existem dados consistentes demonstrando que pequenas refeições com maior frequência podem reverter o estado catabólico observado com três refeições. Essa recomendação é fácil de ser compreendida uma vez que se sabe que o cirrótico tem reserva de glicogênio diminuída e pouca gordura para ser utilizada como substrato energético. Nessas condições, o paciente vai se utilizar de proteína muscular agravando o consumo das proteínas corpóreas. A dieta múltipla fornece substrato de forma mais contínua, permitindo o estado anabólico mesmo com um fornecimento proteico da ordem de 0,8 a 1,0g/kg/dia, tanto nos compensados quanto nos descompensados. Apesar disso, não se deve indicar restrição proteica de qualquer tipo, especialmente no paciente compensado, salvo em condições clínicas muito claras.
Cerca de 30 a 35Kcal/kg de peso corpóreo por dia são suficientes para a manutenção de um paciente com cirrose estável, em condições de repouso relativo. No entanto, para os malnutridos podem ser necessárias 50 a 55Kcal/kg/dia para reter 1g de proteína.
Um aspecto importante nas recomendações nutricionais do hepatopata crônico diz respeito à ingestão de sal. É sabido que estes pacientes apresentam retenção de sódio mesmo em etapas muito iniciais da doença, quando ainda a ascite e o edema não se manifestaram. Por isso, a restrição de sódio deve ser indicada em condições muito claras uma vez que as dietas restritivas em sódio acabam por diminuir o apetite, agravando a desnutrição.
Nesse post, destacamos abordagem nutricional na cirrose compensada. Nos posts seguintes, discutiremos a abordagem utilizada no controle de algumas complicações da cirrose descompensada.

Até mais!

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domingo, 1 de junho de 2014

Representações sociais sobre cirrose hepática alcoólica elaboradas por seus portadores

Hoje analisaremos um estudo descritivo e exploratório, com abordagem qualitativa, baseado em representações elaboradas pelos indivíduos acometidos por cirrose quanto à sua condição patológica.
A pesquisa foi desenvolvida no Hospital São José de Doenças Infecciosas e no Hospital Universitário Walter Cantídio, ambas instituições públicas que prestam assistência ambulatorial a pacientes com doenças hepáticas.
Participaram da pesquisa quinze sujeitos com diagnóstico de cirrose hepática alcoólica, os quais responderam a um roteiro de entrevista sobre as condições sócio demográficas e o tempo de diagnóstico da doença, além de questões norteadoras relativas à temática. Eles deveriam atender aos seguintes critérios de inclusão: ser informado sobre o diagnóstico de cirrose hepática pelo uso de bebidas alcoólicas; ser maior de 18 anos e estar internado ou ser atendido em nível ambulatorial nos hospitais referidos e aceitar participar do estudo.
A tabela a seguir expõe os dados de acordo com as variáveis sócio demográficas e tempo de diagnóstico. As autoras consideraram importante caracterizar o perfil dos sujeitos do estudo por ser fundamental para a compreensão de suas falas.
Tabela 1: Características dos sujeitos constituintes da amostra de acordo com as variáveis sócio-demográficas e tempo de diagnóstico. Fortaleza-Ceará, 2007.
Com a análise das entrevistas, surgiram três principais categorias de dados que permitem a apreensão das representações sociais sobre cirrose hepática alcoólica elaboradas por seus portadores.
A primeira delas é “Concepções sobre cirrose”, que engloba as unidades de análise temáticas nas quais os participantes manifestam seus conhecimentos sobre cirrose hepática alcoólica, que foram assimilados a partir de informações científicas, populares e pela experiência dos sinais e sintomas da doença. A tabela a seguir mostra que, das três subcategorias, destaca-se a ancorada nos aspectos socioculturais, com 110 (53,4%) unidades temáticas nas quais os sujeitos relacionam a cirrose a ideias provenientes da sabedoria popular, algumas vezes marcadas pelo desconhecimento, confusões com outras doenças e utilização do imaginário simbólico ligando a doença à morte.
Tabela 2: Distribuição das freqüências e dos percentuais da categoria concepções sobre cirrose.

Esses valores podem ser confirmados pelas seguintes declarações feitas pelos entrevistados:
“...cirrose é barriga d’água... vi muita gente morrer de barriga d’água...”
“...é o sangue virando água...”
“...vi os mais velhos falar que a pessoa danificava o fígado, que vomitava o fígado...”
Esta subcategoria deixa claro que os valores e crenças sociais também são responsáveis pelo comportamento dos sujeitos diante da cirrose hepática alcoólica, uma vez que as informações veiculadas e adquiridas dentro da sociedade contribuem para representação da mesma como doença que destrói o organismo e que pode levar à morte, também referida como representação social destas doenças, pois quem as desenvolve revela que as mesmas são mais que doenças crônicas fatais, pois são a própria morte.
A segunda categoria é “Percepções sobre cirrose”, que evidencia sentimentos e visão dos sujeitos sobre si mesmo e sobre o que os outros pensam deles. É composta por duas subcategorias: autopercepção e heteropercepção, com um total de 253 unidades temáticas. 
Tabela 3: Distribuição das freqüências e dos percentuais da categoria percepções sobre cirrose.

Das duas subcategorias destaca-se a autopercepção, com 184 (70,3%) unidades temáticas; conforme revela, os sujeitos apontam elementos que agregam as descrições relacionadas ao corpo (estética) e emocionais.
Eles afirmam se ver:
“... acabado em relação à minha saúde.”
“... eu acho que tem mais espanto, é... ser magro, ser amarelo. ”
Estes depoimentos são permeados de muita angústia, insatisfação e revolta pela mudança da autoimagem, pois o corpo passa a ser foco de sentimentos que influenciam a relação com o mundo, provocando uma baixa da autoestima.
A terceira e última categoria é “Consequências da cirrose” que agrupa as unidades de análise temática em que os sujeitos relacionam as repercussões e alterações em suas vidas causadas pela cirrose hepática. É composta por quatro subcategorias: social, econômica, emocional e outras, com um total de 382 unidades temáticas. Destas, se destacam as consequências sociais, com 176 (46,2%) unidades temáticas, e as consequências emocionais, com 140 (36,7%) unidades temáticas, com um somatório de 316 (82,9%) unidades temáticas.
Tabela 4: Distribuição das freqüências e dos percentuais da categoria conseqüências da cirrose.

Em relação à subcategoria consequência social, constata-se um agrupamento de valores ligados às questões de relações com os familiares e rede social provocadas pela abstinência alcoólica necessária, que contribuíram para o isolamento social.
“...a bebida é, geralmente,... um chamariz,... e hoje a minha família muito pouco vai em casa, porque não tem mais o álcool.”
“...os meus amigos... a gente... só tenho amigos na hora pra beber...”
Para a subcategoria emocional foram direcionados todos os sentimentos de preocupação, angústia, ideias suicidas, tristeza, depressão, fé, arrependimento, esperança, tristeza e de reflexão, relatados pelos sujeitos. Esta subcategoria compreende, portanto, as necessidades psicológicas e psicoespirituais.
“... eu saio pouco, agora eu não saio mais…fico mais trancado em casa, mais deitado...”
“...eu tinha vontade de me acabar logo! ”
Revelam, sobretudo, os rompimentos dos vínculos afetivos, os sofrimentos produzidos e desencadeados por uma conduta moral e cultural anterior e o arrependimento diante dessa condição não desejada, de baixa autoestima, e associações entre as expressões de religiosidade e de fé. Estas pessoas estão emocionalmente perturbadas, com pensamentos suicidas, caracterizados pela desesperança, desamparo e desespero.
Conclui-se, por fim, que a cirrose hepática alcoólica é representada como doença que destrói e leva à morte, sendo o convívio com a mesma permeado de momentos de angústia, estigmas, dificuldades socioeconômicas e rompimento dos vínculos afetivos, o que gera sofrimentos que muitas vezes desencadeiam depressão e ideias suicidas, pois a condição de portador desta enfermidade reflete uma conduta moral anterior inadequada, o alcoolismo.
Apesar de tantas dificuldades, espera-se que esse momento não seja solitário, e sim compartilhado pela família, pela rede social e, principalmente, por profissionais de saúde habilitados no acolhimento e cuidado. A estes, sobretudo, cabe compreender a história natural da doença, bem como as complicações e estágios em que o indivíduo se encontra, na busca de motivá-lo não apenas para adesão ao tratamento, mas para retorno à vida, que exige dos mesmos habilidades para trabalhar, principalmente, a comunicação, e, desse modo, permitir que os indivíduos expressem seus valores, medos e expectativas.

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http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-81452007000400018&lang=pt