quarta-feira, 9 de julho de 2014

Abordagem nutricional na encefalopatia hepática

Existem inúmeras relações entre a encefalopatia e a nutrição do paciente hepatopata. A abordagem nutricional permite corrigir ou controlar a complicação e, mais ainda, fornecer uma condição de anabolismo que vai resultar em melhoria do estado geral do paciente, inclusive tornando-o mais resistente ao aparecimento de outras complicações como ascite ou infecção. Nesta post serão discutidas, entre outras, algumas medidas clássicas, para se atingir aqueles objetivos.

1- Restrição proteica: é a abordagem mais conhecida e existem inúmeros trabalhos mostrando que a restrição de proteína animal controla de fato a encefalopatia. Todavia, vários aspectos devem ser levados em conta. A carne de origem animal, especialmente a dos mamíferos, é um componente importante da dieta ocidental. A sua restrição com frequência leva a agravamento da condição nutricional do paciente devido à persistência do estado catabólico. Há diversas formas de encarar o problema. Em primeiro lugar, deve-se dizer que o hepatopata mantém-se em estado de equilíbrio nitrogenado com ingestão de 0,5 a 1g de proteína por quilo por dia. É o cirrótico por álcool o que exige maior oferta proteica, especialmente logo após a interrupção da bebida. Os hepatopatas com encefalopatia geralmente apresentam-se bastante desnutridos, devendo-se procurar um estado de anabolismo. Sabe-se que menos de 10% dos encefalopatas apresentam necessidade de restrição de proteína animal. Assim, um bom início é não restringir proteína animal, pelo menos até que se tenha a certeza de que se trata de paciente com intolerância à carne bovina. Nesta última condição, devemos restringir a proteína animal a zero e, a seguir, ir aumentando progressivamente até identificar o nível da intolerância. Ainda no que se refere à proteína animal, observa-se que há os que proscrevem dietas contendo proteínas do leite e os que procuram fornecer praticamente toda a proteína animal a partir do peixe. De modo geral, a dieta contendo proteínas de carne de vaca é a que mais contém aminoácidos de cadeia ramificada, em segundo lugar vem a carne de peixe (ou carnes brancas - aves) e, por último, a proteína derivada do leite. Assim, devemos tomar precauções para não recomendar uma dieta monótona, que dificilmente será tolerada a longo prazo, como é o caso da carne de peixe. A melhor é aquela que contempla de forma razoavelmente balanceada todas as fontes de proteína animal.

2-Proteína vegetal: Há mais de 20 anos descobriu-se que o hepatopata tolera melhor proteínas de origem vegetal do que as de origem animal. Provavelmente este fato deve-se à diferente composição de aminoácidos dessas proteínas. Outro fator relacionado com o efeito benéfico desta fonte proteica é que os vegetais, de modo geral, aceleram o trânsito intestinal e produzem dois efeitos favoráveis ao controle da encefalopatia: o próprio efeito laxante e uma maior quantidade de proteína excretada (não absorvida). Evidentemente, esses efeitos benéficos são parcialmente neutralizados pela dificuldade em manter o paciente com dietas desse tipo. Além disso, já dissemos que, para haver síntese proteica, é necessária a associação de proteínas animais e vegetais contendo tanto os aminoácidos essenciais quanto os não-essenciais. Mais ainda, o volume da dieta muito rica em vegetais, em pacientes inapetentes, é outro problema a ser considerado.

3-Dissacarídeos inabsorvíveis: O mais conhecido é a lactulose cuja apresentação comercial é um xarope contaminado com quantidades significativas de lactose, galactose e outros carboidratos, substâncias responsáveis pelo seu sabor adocicado. Há uma forma cristalizada, pura, melhor tolerada, porém muito mais cara. A lactulose talvez seja o agente que isoladamente tenha o melhor efeito em controlar a encefalopatia. Inicialmente achava-se que seu efeito devia-se a duas ações: diminuição da proliferação de bactérias produtoras de amônia pela acidificação do bolo fecal e ação fortemente laxante. Hoje sabe-se que há outros mecanismos envolvidos que incluem o transporte do íon amônia, e a incorporação de nitrogênio no metabolismo das bactérias, entre outros.
A lactose, açúcar derivado do leite, não é completamente absorvida e tem mecanismo de ação semelhante à lactulose. Por isso, derivados do leite são úteis em controlar a encefalopatia no homem. O lactitol também é um dissacarídeo não absorvido. Tem ação semelhante à lactulose e é melhor tolerado principalmente por ser menos adocicado, todavia é muito mais caro.

4-Aminoáciodos de cadeia ramificada: De modo geral, aceita-se que as soluções orais são mais benéficas que as soluções parenterais. Estas últimas são mais fortemente questionadas. É de ressaltar essas dúvidas principalmente se levarmos em conta a enorme repercussão no meio médico trazida pela hipótese do desbalanço entre aminoácidos aromáticos com os de cadeia ramificada como fator responsável pela encefalopatia dos hepatopatas. Além desse questionamento científico, deve-se frisar o seu alto custo para uso contínuo.

Além dessa abordagem nutricional, podem ser administrados agentes antimicrobianos usados para inibir bactérias produtoras de urease e que promovem a transformação de ureia em amônia, principalmente nas porções mais distais do íleo e nas proximais do intestino grosso. O antimicrobiano mais difundido é a neomicina, usado tanto por via oral quanto misturado ao líquido de lavagem intestinal. Esse antibiótico pertence ao grupo dos aminoglicosídeos e é dito que não é absorvido. Todavia, mais recentemente, descobriu-se que de 1 a 3% da droga é absorvida e pode produzir tanto oto quanto nefrotoxicidade a longo prazo. Por isso, seu uso deve-se restringir no máximo aos pacientes descompensados e por apenas 4 ou 5 dias. A neomicina é um agente ativo contra bactérias Gram. negativas e alguns estafilococos. Os anaeróbios Gram. negativos constituem um grupo de bactérias que produzem uma quantidade substancial de amônia a partir de peptídeos existentes no colón. Por isso outros agentes que combatem estas bactérias também são úteis no controle da encefalopatia. Dentre eles cita-se o metronidazol, droga bastante segura e tão eficiente quanto a neomicina para controle da encefalopatia.

Para resumir o tratamento dos doentes com encefalopatia, devemos avaliar em primeiro lugar se a alteração neuropsíquica foi desencadeada por alguma das complicações tão comuns nos cirróticos. Qualquer que seja a orientação nutricional no hepatopata deve-se sempre fracionar a dieta. Seis refeições por dia, em menores porções por vez, permitem um melhor aproveitamento nutricional, muitas vezes revertendo um estado catabólico persistente. A melhor forma de evitar tanto a encefalopatia quanto as outras complicações é buscar um regime nutricional compatível com anabolismo e reposição das proteínas corpóreas.


 Links relacionados:

8 comentários:

  1. A encefalopatia hepática pode se tornar uma emergência médica. A internação é necessária. O primeiro passo é identificar e tratar qualquer fator que possa ter causado a encefalopatia hepática.É preciso parar o sangramento gastrointestinal. Os intestinos devem estar sem sangue. Infecções, insuficiência renal e anormalidades dos eletrólitos (principalmente potássio) precisam ser tratadas. No entanto, para conviver com essa doença, a dieta citada no texto é fundamental para o bem estar do paciente e deve ser bem prescrita pelo profissional de saúde e devidamente acompanhada.
    http://www.minhavida.com.br/saude/temas/encefalopatia-hepatica#top4

    ResponderExcluir
  2. A dieta para encefalopatia hepática deve ser normocalórica, ou seja deve ter calorias que supram normalmente os seu gastos energéticos.
    Os alimentos com grandes quantidades de aminoácidos de cadeia ramificada são os alimentos aconselhados durante a crise encefalopatia hepática grave. (Isoleucina, valina e leucina. Em menor quantidade alimentos ricos em aminoácidos e cadeias aromáticas).

    ResponderExcluir
  3. Um aspecto bem interessante trabalhado no texto é a questão de se adaptar a dieta nutricional à cultura do paciente. Como dito no texto, na cultura ocidental, há uma ampla inclusão de proteína animal na dieta e essa inclusão é ainda maior na sociedade nordestina, sendo necessário preparo maior de profissionais da área da saúde, sobretudo, os nutricionistas acerca da terapia nutricional para hepatopatas.

    ResponderExcluir
  4. A suplementação com aa de cadeia ramificada pode melhorar a desintoxicação por amônia e estimular a síntese proteica, reduzindo o catabolismo e melhorando o estado nutricional. A leucina estimula a síntese do fator de crescimento dos hepatócitos. Apesar dos dados de literatura ainda controversos, um estudo randomizado demonstrou que a suplementação por longo período com aa de cadeia ramificada oral foi útil na prevenção da falência hepática progressiva e melhorou a perfusão tecidual nos cirróticos. O momento da administração parece importante, foi sugerido que o período noturno é o preferencial: o uso antes de dormir aumentou o nível sérico de proteína em aproximadamente 10%.
    http://www.sbhepatologia.org.br/pdf/encefalopatia/pg26

    ResponderExcluir
  5. Não há uma explicação clara para o surgimento da encefalopatia hepática. A maioria das teorias baseia-se na comprovação de que a concentração de amônia no sangue está aumentada nos cirróticos, especialmente naqueles com encefalopatia. A amônia é produzida principalmente no intestino e deveria ser transformada em uréia (ou glutamina, a partir de glutamato) pelo fígado e eliminada pelas fezes e urina. Essa amônia em excesso, no cérebro, afeta os neurotransmissores e portanto o funcionamento cerebral. Os efeitos da amônia no cérebro incluem a redução nos potenciais pós-sinápticos, aumento na captação de triptofano (cujos metabólitos, entre eles a serotonina, são neuroativos), redução no ATP com perda de energia e o aumento da osmolaridade intracelular dos astrócitos (pela formação de glutamina), que leva ao seu inchaço e vasodilatação cerebral.

    Diversas outras teorias ajudam a explicar a encefalopatia hepática, pois a concentração de amônia no sangue, apesar de aumentada na encefalopatia, não está diretamente relacionada ao grau da doença. Excesso de mercaptanos, manganês e de ácidos graxos de cadeia curta, desequilíbro entre aminoácidos aromáticos e não aromáticos, são outras explicações para a doença.

    http://www.hepcentro.com.br/encefalopatia_hepatica.htm

    ResponderExcluir
  6. Lactulose pode ser prescrita para evitar que as bactérias intestinais produzam amônia e para agir como laxante para retirar sangue dos intestinos. A neomicina também pode ser usada para reduzir a produção de amônia pelas bactérias intestinais. A rifaximina, um novo antibiótico, também é eficiente no combate à encefalopatia hepática.

    Sedativos, tranquilizantes e outros medicamentos que são processados pelo fígado devem ser evitados se possível. Medicamentos que contenham amônia (inclusive certos antiácidos) também devem ser evitados.

    ResponderExcluir
  7. Não há um exame específico para diagnosticar a encefalopatia hepática. Mesmo a dosagem de amônia (preferencialmente no sangue arterial) não é eficaz, porque o seu aumento não está necessariamente ligado ao grau de encefalopatia e ela já está aumentada na maioria dos cirróticos. Assim, o diagnóstico é feito clinicamente (alterações neurológicas compatíveis na presença de doença hepática) e com a exclusão de outras doenças (tabela abaixo). pacientes cirróticos devem ter uma dieta limitada em proteínas (geralmente 1,2 g/k/dia); o recomendado é iniciar com uma quantidade pequena e aumentar lentamente até a dose máxima, mas nunca deixar o paciente se proteína por vários, pois isso desencadeará um processo catabólico levando à desnutrição e piora da encefalopatia; recomenda-se o uso de vegetais e lacitínios para isso; há evidência de que a complementação de zinco seja benéfica, especialmente em cirróticos desnutridos;
    Fonte: http://www.hepcentro.com.br/encefalopatia_hepatica.htm

    ResponderExcluir
  8. O fígado tem papel central na regulação do estado nutricional. Muitos fatores
    podem alterar o equilíbrio metabólico nas doenças hepáticas, gerando inúmeros
    problemas nutricionais. Há redução dos estoques de glicogênio e conseqüente
    gliconeogênese e o metabolismo energético está reduzido para oxidação de gorduras. Também ocorre resistência periférica à insulina. Em conseqüência, a doença hepática avançada resulta, freqüentemente, em hipercatabolismo protéico. Estima-se que 25% dos pacientes cirróticos apresentam algum grau de encefalopatia hepática. A relação da encefalopatia com desnutrição ainda não está bem clara.
    http://www.sbhepatologia.org.br/pdf/encefalopatia/pg26

    ResponderExcluir