Hoje
analisaremos um estudo descritivo e exploratório, com abordagem qualitativa, baseado
em representações elaboradas pelos indivíduos acometidos por cirrose quanto à
sua condição patológica.
A pesquisa
foi desenvolvida no Hospital São José de Doenças Infecciosas e no Hospital
Universitário Walter Cantídio, ambas instituições públicas que prestam
assistência ambulatorial a pacientes com doenças hepáticas.
Participaram
da pesquisa quinze sujeitos com diagnóstico de cirrose hepática alcoólica, os
quais responderam a um roteiro de entrevista sobre as condições sócio
demográficas e o tempo de diagnóstico da doença, além de questões norteadoras
relativas à temática. Eles deveriam atender aos seguintes critérios de
inclusão: ser informado sobre o diagnóstico de cirrose hepática pelo uso de
bebidas alcoólicas; ser maior de 18 anos e estar internado ou ser atendido em
nível ambulatorial nos hospitais referidos e aceitar participar do estudo.
A tabela a
seguir expõe os dados de acordo com as variáveis sócio demográficas e tempo de
diagnóstico. As autoras consideraram importante caracterizar o perfil dos
sujeitos do estudo por ser fundamental para a compreensão de suas falas.
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| Tabela 1: Características dos sujeitos constituintes da amostra de acordo com as variáveis sócio-demográficas e tempo de diagnóstico. Fortaleza-Ceará, 2007. |
Com a
análise das entrevistas, surgiram três principais categorias de dados que
permitem a apreensão das representações sociais sobre cirrose hepática
alcoólica elaboradas por seus portadores.
A primeira
delas é “Concepções sobre cirrose”, que engloba as unidades de análise temáticas
nas quais os participantes manifestam seus conhecimentos sobre cirrose hepática
alcoólica, que foram assimilados a partir de informações científicas, populares
e pela experiência dos sinais e sintomas da doença. A tabela a seguir mostra
que, das três subcategorias, destaca-se a ancorada nos aspectos socioculturais,
com 110 (53,4%) unidades temáticas nas quais os sujeitos relacionam a cirrose a
ideias provenientes da sabedoria popular, algumas vezes marcadas pelo
desconhecimento, confusões com outras doenças e utilização do imaginário
simbólico ligando a doença à morte.
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| Tabela 2: Distribuição das freqüências e dos percentuais da categoria concepções sobre cirrose. |
Esses
valores podem ser confirmados pelas seguintes declarações feitas pelos
entrevistados:
“...cirrose
é barriga d’água... vi muita gente morrer de barriga d’água...”
“...é o
sangue virando água...”
“...vi os
mais velhos falar que a pessoa danificava o fígado, que vomitava o fígado...”
Esta
subcategoria deixa claro que os valores e crenças sociais também são
responsáveis pelo comportamento dos sujeitos diante da cirrose hepática
alcoólica, uma vez que as informações veiculadas e adquiridas dentro da
sociedade contribuem para representação da mesma como doença que destrói o
organismo e que pode levar à morte, também referida como representação social
destas doenças, pois quem as desenvolve revela que as mesmas são mais que
doenças crônicas fatais, pois são a própria morte.
A segunda
categoria é “Percepções sobre cirrose”, que evidencia sentimentos e visão dos
sujeitos sobre si mesmo e sobre o que os outros pensam deles. É composta por
duas subcategorias: autopercepção e heteropercepção, com um total de 253
unidades temáticas.
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| Tabela 3: Distribuição das freqüências e dos percentuais da categoria percepções sobre cirrose. |
Das duas
subcategorias destaca-se a autopercepção, com 184 (70,3%) unidades temáticas;
conforme revela, os sujeitos apontam elementos que agregam as descrições
relacionadas ao corpo (estética) e emocionais.
Eles afirmam
se ver:
“... acabado
em relação à minha saúde.”
“... eu acho
que tem mais espanto, é... ser magro, ser amarelo. ”
Estes
depoimentos são permeados de muita angústia, insatisfação e revolta pela
mudança da autoimagem, pois o corpo passa a ser foco de sentimentos que
influenciam a relação com o mundo, provocando uma baixa da autoestima.
A terceira e
última categoria é “Consequências da cirrose” que agrupa as unidades de análise
temática em que os sujeitos relacionam as repercussões e alterações em suas
vidas causadas pela cirrose hepática. É composta por quatro subcategorias: social,
econômica, emocional e outras, com um total de 382 unidades temáticas. Destas,
se destacam as consequências sociais, com 176 (46,2%) unidades temáticas, e as consequências
emocionais, com 140 (36,7%) unidades temáticas, com um somatório de 316 (82,9%)
unidades temáticas.
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| Tabela 4: Distribuição das freqüências e dos percentuais da categoria conseqüências da cirrose. |
Em relação à
subcategoria consequência social, constata-se um agrupamento de valores ligados
às questões de relações com os familiares e rede social provocadas pela
abstinência alcoólica necessária, que contribuíram para o isolamento social.
“...a bebida
é, geralmente,... um chamariz,... e hoje a minha família muito pouco vai em
casa, porque não tem mais o álcool.”
“...os meus
amigos... a gente... só tenho amigos na hora pra beber...”
Para a
subcategoria emocional foram direcionados todos os sentimentos de preocupação,
angústia, ideias suicidas, tristeza, depressão, fé, arrependimento, esperança,
tristeza e de reflexão, relatados pelos sujeitos. Esta subcategoria compreende,
portanto, as necessidades psicológicas e psicoespirituais.
“... eu saio
pouco, agora eu não saio mais…fico mais trancado em casa, mais deitado...”
“...eu tinha
vontade de me acabar logo! ”
Revelam,
sobretudo, os rompimentos dos vínculos afetivos, os sofrimentos produzidos e
desencadeados por uma conduta moral e cultural anterior e o arrependimento
diante dessa condição não desejada, de baixa autoestima, e associações entre as
expressões de religiosidade e de fé. Estas pessoas estão emocionalmente
perturbadas, com pensamentos suicidas, caracterizados pela desesperança,
desamparo e desespero.
Conclui-se,
por fim, que a cirrose hepática alcoólica é representada como doença que
destrói e leva à morte, sendo o convívio com a mesma permeado de momentos de
angústia, estigmas, dificuldades socioeconômicas e rompimento dos vínculos
afetivos, o que gera sofrimentos que muitas vezes desencadeiam depressão e ideias
suicidas, pois a condição de portador desta enfermidade reflete uma conduta
moral anterior inadequada, o alcoolismo.
Apesar de
tantas dificuldades, espera-se que esse momento não seja solitário, e sim
compartilhado pela família, pela rede social e, principalmente, por
profissionais de saúde habilitados no acolhimento e cuidado. A estes,
sobretudo, cabe compreender a história natural da doença, bem como as
complicações e estágios em que o indivíduo se encontra, na busca de motivá-lo
não apenas para adesão ao tratamento, mas para retorno à vida, que exige dos
mesmos habilidades para trabalhar, principalmente, a comunicação, e, desse
modo, permitir que os indivíduos expressem seus valores, medos e expectativas.
Links relacionados:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-81452007000400018&lang=pt
Links relacionados:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-81452007000400018&lang=pt




A primeira categoria analisada mostra aquilo que foi abordado no post anterior quanto aos fatores sociais, que impedem a população de conhecer de fato os males do álcool no corpo.
ResponderExcluirA segunda categoria mostra que a falta de conhecimento sobre a doença faz com que o paciente atente-se somente ao que ele vê, o que se não for acompanhado, é alarmante, pois o paciente pode deixar de tratar aquilo que ele não enxerga e que é o mais perigoso.
A terceira e última categoria mostra, dentre muitas consequências, aquelas que abalam psicologicamente o paciente.
Conclui-se com todas as categorias analisadas, que informar a população sobre a doença, abordando formas de adquiri-la, como melhorar e como lidar com esta socialmente, é fundamental e imprescindível.
É essencial que as pessoas saibam os malefícios do álcool, também é importante que as pessoas se consultem regulamente, avisando seus sintomas ao médico. A cirrose advinda de alcoolismo provoca um abalo muito grande no psicológico do paciente.
ResponderExcluirA cirrose hepática já é um grau bastante avançado do alcoolismo, portanto, seria interessante que a Estratégia da Saúde da Família acompanhasse os membros das famílias sobre a ingestão alcoólica, de forma a traçar, precocemente, um provável perfil de alcoolismo que poderá desencadear futuramente em uma cirrose hepática, por exemplo.
ResponderExcluirApesar de o estudo apresentar resultados já esperados para a maioria dos pacientes com cirrose hepática, a amostra é insuficiente e pouco diversa para traçar seu perfil de maneira exata.
ResponderExcluirOi Ana Beatriz, esse tipo de pesquisa é diferente da pesquisa que vcs tem aprendido em Bioestatística que é a pesquisa quantitativa, embora devessem aprender lá tb. Esse tipo de pesquisa é a pesquisa qualitativa. onde são avaliados os aspectos qualitativos dos sujeitos, suas razões, pensamentos, desejos, percepções. É uma forma de se entender os conteúdos dos sujeitos que estão nessas situações.
ExcluirSe fosse uma pesquisa quantitativa, veríamos quantos sujeitos fazem, ou tem ou foram submetidos, essas coisas, mas não as informações que vimos nesse trabalho.
Essas duas formas de pesquisa são complementares e fundamentais para o entendimento das circunstâncias que queremos entender.
Devido à presença cada vez maior do excesso de ingestão de drogas na sociedade, sobretudo o álcool, dentro da Estratégia de Saúde da Família, mais precisamente nos Centros de Atenção Psicossocial, são tratados pacientes que sofram do alcoolismo e de doenças acarretadas por este, por exemplo, a cirrose hepática. No entanto, às vezes somente o apoio de psicológicos e psiquiatras não é o suficiente. Como foi dito na postagem, os pacientes sofrem exclusão da família e dos amigos, que são pecas fundamentais para um bom tratamento.
ResponderExcluirPela análise das categorias, em principal da primeira, percebe-se que a cirrose ainda é muito estigmatizada na sociedade. O indivíduo cirrótico está vulnerável a sofrer com as concepções populares da doença. É de extrema importância que essa definição mórbida erroneamente atribuída ao enfermo seja repensada. E essa reavaliação poderá ser feita oferecendo-se informação à população. O profissional da saúde desempenha papel crucial na situação, visto que pode ser o elemento iniciador da propagação do conhecimento acerca da doença (em postos de saúde, ambulatórios ou mesmo em campanhas voltadas para o próprio esclarecimento). Tal atitude pode também contribuir para a humanização da assistência ao enfermo, o que influencia no tratamento deste.
ResponderExcluir“...a bebida é, geralmente,... um chamariz,... e hoje a minha família muito pouco vai em casa, porque não tem mais o álcool.”
ResponderExcluirMuito me chamou atenção essa frase, pela hiprocresia que ela retrata no outro. As categorias que mais pontuaram, foram a "emocional" e "social", como se o indiviiduo portador de cirrose hepática perdesse apreço dos individuos ao seu redor por causa da doença, mas a hipocresia reside, porque o individuo em tratamento e em luta para se livrar do alcool, já não tem mais nenhum na casa dele, e quando ele está fazendo o que as pessoas, teoricamente, julgariam como bom e certo, ele está sendo abandonado.
Eu observei atentamente o perfil dos pacientes citados, e os comentários que os mesmos fizeram acerca da doença que possuem, ou desenvolveram. O que eu percebo, como apontou o Lucas, é uma vinculação entre a qualidade de vida, ou o lazer, ou mesmo o entretenimento e a possibilidade de ingerir bebida alcoólica. O imaginário simbólico desses pacientes me parece alienante ou uma forma de esconder de si mesmo as verdadeiras causas do estado de saúde, talvez pela noção intuitiva da culpabilidade agregada pela doença, ao atribuir a cirrose outras fontes, chamando-a de barriga dágua ou coisa parecida. Há meu ver, aí retorno ao primeiro post do blog, o problema está no incentivo social ao uso do alcool ainda na adolescência como rito de passagem ou inclusão social. Ainda acredito que a educação dos pais, ou da população acerca dos males sociais e dos problemas de saúde advindos do alcool, aliada a uma completa proibição de comerciais que tenham como objetivo a promoção de qualquer bebida alcoolica aliada a imagens de bem estar e realizações sociais, belas mulheres, praias, enfim, que sejam chamarizes ou iscas para nossos jovens.
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