domingo, 1 de junho de 2014

Representações sociais sobre cirrose hepática alcoólica elaboradas por seus portadores

Hoje analisaremos um estudo descritivo e exploratório, com abordagem qualitativa, baseado em representações elaboradas pelos indivíduos acometidos por cirrose quanto à sua condição patológica.
A pesquisa foi desenvolvida no Hospital São José de Doenças Infecciosas e no Hospital Universitário Walter Cantídio, ambas instituições públicas que prestam assistência ambulatorial a pacientes com doenças hepáticas.
Participaram da pesquisa quinze sujeitos com diagnóstico de cirrose hepática alcoólica, os quais responderam a um roteiro de entrevista sobre as condições sócio demográficas e o tempo de diagnóstico da doença, além de questões norteadoras relativas à temática. Eles deveriam atender aos seguintes critérios de inclusão: ser informado sobre o diagnóstico de cirrose hepática pelo uso de bebidas alcoólicas; ser maior de 18 anos e estar internado ou ser atendido em nível ambulatorial nos hospitais referidos e aceitar participar do estudo.
A tabela a seguir expõe os dados de acordo com as variáveis sócio demográficas e tempo de diagnóstico. As autoras consideraram importante caracterizar o perfil dos sujeitos do estudo por ser fundamental para a compreensão de suas falas.
Tabela 1: Características dos sujeitos constituintes da amostra de acordo com as variáveis sócio-demográficas e tempo de diagnóstico. Fortaleza-Ceará, 2007.
Com a análise das entrevistas, surgiram três principais categorias de dados que permitem a apreensão das representações sociais sobre cirrose hepática alcoólica elaboradas por seus portadores.
A primeira delas é “Concepções sobre cirrose”, que engloba as unidades de análise temáticas nas quais os participantes manifestam seus conhecimentos sobre cirrose hepática alcoólica, que foram assimilados a partir de informações científicas, populares e pela experiência dos sinais e sintomas da doença. A tabela a seguir mostra que, das três subcategorias, destaca-se a ancorada nos aspectos socioculturais, com 110 (53,4%) unidades temáticas nas quais os sujeitos relacionam a cirrose a ideias provenientes da sabedoria popular, algumas vezes marcadas pelo desconhecimento, confusões com outras doenças e utilização do imaginário simbólico ligando a doença à morte.
Tabela 2: Distribuição das freqüências e dos percentuais da categoria concepções sobre cirrose.

Esses valores podem ser confirmados pelas seguintes declarações feitas pelos entrevistados:
“...cirrose é barriga d’água... vi muita gente morrer de barriga d’água...”
“...é o sangue virando água...”
“...vi os mais velhos falar que a pessoa danificava o fígado, que vomitava o fígado...”
Esta subcategoria deixa claro que os valores e crenças sociais também são responsáveis pelo comportamento dos sujeitos diante da cirrose hepática alcoólica, uma vez que as informações veiculadas e adquiridas dentro da sociedade contribuem para representação da mesma como doença que destrói o organismo e que pode levar à morte, também referida como representação social destas doenças, pois quem as desenvolve revela que as mesmas são mais que doenças crônicas fatais, pois são a própria morte.
A segunda categoria é “Percepções sobre cirrose”, que evidencia sentimentos e visão dos sujeitos sobre si mesmo e sobre o que os outros pensam deles. É composta por duas subcategorias: autopercepção e heteropercepção, com um total de 253 unidades temáticas. 
Tabela 3: Distribuição das freqüências e dos percentuais da categoria percepções sobre cirrose.

Das duas subcategorias destaca-se a autopercepção, com 184 (70,3%) unidades temáticas; conforme revela, os sujeitos apontam elementos que agregam as descrições relacionadas ao corpo (estética) e emocionais.
Eles afirmam se ver:
“... acabado em relação à minha saúde.”
“... eu acho que tem mais espanto, é... ser magro, ser amarelo. ”
Estes depoimentos são permeados de muita angústia, insatisfação e revolta pela mudança da autoimagem, pois o corpo passa a ser foco de sentimentos que influenciam a relação com o mundo, provocando uma baixa da autoestima.
A terceira e última categoria é “Consequências da cirrose” que agrupa as unidades de análise temática em que os sujeitos relacionam as repercussões e alterações em suas vidas causadas pela cirrose hepática. É composta por quatro subcategorias: social, econômica, emocional e outras, com um total de 382 unidades temáticas. Destas, se destacam as consequências sociais, com 176 (46,2%) unidades temáticas, e as consequências emocionais, com 140 (36,7%) unidades temáticas, com um somatório de 316 (82,9%) unidades temáticas.
Tabela 4: Distribuição das freqüências e dos percentuais da categoria conseqüências da cirrose.

Em relação à subcategoria consequência social, constata-se um agrupamento de valores ligados às questões de relações com os familiares e rede social provocadas pela abstinência alcoólica necessária, que contribuíram para o isolamento social.
“...a bebida é, geralmente,... um chamariz,... e hoje a minha família muito pouco vai em casa, porque não tem mais o álcool.”
“...os meus amigos... a gente... só tenho amigos na hora pra beber...”
Para a subcategoria emocional foram direcionados todos os sentimentos de preocupação, angústia, ideias suicidas, tristeza, depressão, fé, arrependimento, esperança, tristeza e de reflexão, relatados pelos sujeitos. Esta subcategoria compreende, portanto, as necessidades psicológicas e psicoespirituais.
“... eu saio pouco, agora eu não saio mais…fico mais trancado em casa, mais deitado...”
“...eu tinha vontade de me acabar logo! ”
Revelam, sobretudo, os rompimentos dos vínculos afetivos, os sofrimentos produzidos e desencadeados por uma conduta moral e cultural anterior e o arrependimento diante dessa condição não desejada, de baixa autoestima, e associações entre as expressões de religiosidade e de fé. Estas pessoas estão emocionalmente perturbadas, com pensamentos suicidas, caracterizados pela desesperança, desamparo e desespero.
Conclui-se, por fim, que a cirrose hepática alcoólica é representada como doença que destrói e leva à morte, sendo o convívio com a mesma permeado de momentos de angústia, estigmas, dificuldades socioeconômicas e rompimento dos vínculos afetivos, o que gera sofrimentos que muitas vezes desencadeiam depressão e ideias suicidas, pois a condição de portador desta enfermidade reflete uma conduta moral anterior inadequada, o alcoolismo.
Apesar de tantas dificuldades, espera-se que esse momento não seja solitário, e sim compartilhado pela família, pela rede social e, principalmente, por profissionais de saúde habilitados no acolhimento e cuidado. A estes, sobretudo, cabe compreender a história natural da doença, bem como as complicações e estágios em que o indivíduo se encontra, na busca de motivá-lo não apenas para adesão ao tratamento, mas para retorno à vida, que exige dos mesmos habilidades para trabalhar, principalmente, a comunicação, e, desse modo, permitir que os indivíduos expressem seus valores, medos e expectativas.

Links relacionados:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-81452007000400018&lang=pt

9 comentários:

  1. A primeira categoria analisada mostra aquilo que foi abordado no post anterior quanto aos fatores sociais, que impedem a população de conhecer de fato os males do álcool no corpo.
    A segunda categoria mostra que a falta de conhecimento sobre a doença faz com que o paciente atente-se somente ao que ele vê, o que se não for acompanhado, é alarmante, pois o paciente pode deixar de tratar aquilo que ele não enxerga e que é o mais perigoso.
    A terceira e última categoria mostra, dentre muitas consequências, aquelas que abalam psicologicamente o paciente.
    Conclui-se com todas as categorias analisadas, que informar a população sobre a doença, abordando formas de adquiri-la, como melhorar e como lidar com esta socialmente, é fundamental e imprescindível.

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  2. É essencial que as pessoas saibam os malefícios do álcool, também é importante que as pessoas se consultem regulamente, avisando seus sintomas ao médico. A cirrose advinda de alcoolismo provoca um abalo muito grande no psicológico do paciente.

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  3. A cirrose hepática já é um grau bastante avançado do alcoolismo, portanto, seria interessante que a Estratégia da Saúde da Família acompanhasse os membros das famílias sobre a ingestão alcoólica, de forma a traçar, precocemente, um provável perfil de alcoolismo que poderá desencadear futuramente em uma cirrose hepática, por exemplo.

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  4. Apesar de o estudo apresentar resultados já esperados para a maioria dos pacientes com cirrose hepática, a amostra é insuficiente e pouco diversa para traçar seu perfil de maneira exata.

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    1. Oi Ana Beatriz, esse tipo de pesquisa é diferente da pesquisa que vcs tem aprendido em Bioestatística que é a pesquisa quantitativa, embora devessem aprender lá tb. Esse tipo de pesquisa é a pesquisa qualitativa. onde são avaliados os aspectos qualitativos dos sujeitos, suas razões, pensamentos, desejos, percepções. É uma forma de se entender os conteúdos dos sujeitos que estão nessas situações.
      Se fosse uma pesquisa quantitativa, veríamos quantos sujeitos fazem, ou tem ou foram submetidos, essas coisas, mas não as informações que vimos nesse trabalho.
      Essas duas formas de pesquisa são complementares e fundamentais para o entendimento das circunstâncias que queremos entender.

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  5. Devido à presença cada vez maior do excesso de ingestão de drogas na sociedade, sobretudo o álcool, dentro da Estratégia de Saúde da Família, mais precisamente nos Centros de Atenção Psicossocial, são tratados pacientes que sofram do alcoolismo e de doenças acarretadas por este, por exemplo, a cirrose hepática. No entanto, às vezes somente o apoio de psicológicos e psiquiatras não é o suficiente. Como foi dito na postagem, os pacientes sofrem exclusão da família e dos amigos, que são pecas fundamentais para um bom tratamento.

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  6. Pela análise das categorias, em principal da primeira, percebe-se que a cirrose ainda é muito estigmatizada na sociedade. O indivíduo cirrótico está vulnerável a sofrer com as concepções populares da doença. É de extrema importância que essa definição mórbida erroneamente atribuída ao enfermo seja repensada. E essa reavaliação poderá ser feita oferecendo-se informação à população. O profissional da saúde desempenha papel crucial na situação, visto que pode ser o elemento iniciador da propagação do conhecimento acerca da doença (em postos de saúde, ambulatórios ou mesmo em campanhas voltadas para o próprio esclarecimento). Tal atitude pode também contribuir para a humanização da assistência ao enfermo, o que influencia no tratamento deste.

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  7. “...a bebida é, geralmente,... um chamariz,... e hoje a minha família muito pouco vai em casa, porque não tem mais o álcool.”
    Muito me chamou atenção essa frase, pela hiprocresia que ela retrata no outro. As categorias que mais pontuaram, foram a "emocional" e "social", como se o indiviiduo portador de cirrose hepática perdesse apreço dos individuos ao seu redor por causa da doença, mas a hipocresia reside, porque o individuo em tratamento e em luta para se livrar do alcool, já não tem mais nenhum na casa dele, e quando ele está fazendo o que as pessoas, teoricamente, julgariam como bom e certo, ele está sendo abandonado.

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  8. Eu observei atentamente o perfil dos pacientes citados, e os comentários que os mesmos fizeram acerca da doença que possuem, ou desenvolveram. O que eu percebo, como apontou o Lucas, é uma vinculação entre a qualidade de vida, ou o lazer, ou mesmo o entretenimento e a possibilidade de ingerir bebida alcoólica. O imaginário simbólico desses pacientes me parece alienante ou uma forma de esconder de si mesmo as verdadeiras causas do estado de saúde, talvez pela noção intuitiva da culpabilidade agregada pela doença, ao atribuir a cirrose outras fontes, chamando-a de barriga dágua ou coisa parecida. Há meu ver, aí retorno ao primeiro post do blog, o problema está no incentivo social ao uso do alcool ainda na adolescência como rito de passagem ou inclusão social. Ainda acredito que a educação dos pais, ou da população acerca dos males sociais e dos problemas de saúde advindos do alcool, aliada a uma completa proibição de comerciais que tenham como objetivo a promoção de qualquer bebida alcoolica aliada a imagens de bem estar e realizações sociais, belas mulheres, praias, enfim, que sejam chamarizes ou iscas para nossos jovens.

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